quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Ricky Martin fala sobre o poder da música, a tragédia da boate Pulse, e porque ele apoia Hillary Clinton

Olá pessoal!! Confira a tradução da entrevista que nosso amado Ricky Martin concedeu ao jornalista Randy Shulman da revista americana Metro Weekly. Na entrevista ele fala sobre o poder da música, familia, a tragédia da boate Pulse, e porque ele apoia Hillary Clinton.

Ricky Martin: o poder da música, a tragédia da boate Pulse, e por que ele apoia Hillary Clinton
"Ei, cara!" - Ricky Martin irrompe com um calor imediato e familiaridade, uma efervescência que geralmente não encontra ao entrevistar superestrelas internacionais por telefone. E, em seguida, vem a graciosidade. - "Obrigado pelo seu tempo." - Celebridades nunca dizem isso.

Infelizmente, nosso tempo é curto - cerca de 20 minutos determinados pela equipe de Martin para nossa entrevista exclusiva. Ainda sobre esta segunda-feira de manhã, Ricky Martin é de humor brilhante, alegre, mais do que feliz em falar sobre o impacto de se assumir gay publicamente teve na sua vida seis anos após o fato, seus sentimentos sobre a tragédia de boate do Pulse (a maioria das vítimas não eram só gays, mas de Porto Rico) e a importância do seu voto para a seu candidato a presidência do Estados Unidos, Hillary Clinton.

Ele recua momentaneamente quando o nome de Bush é mencionado — Martin cantou em uma apresentação na Casa Branca em 2001 na festa de Bush — e define que foi um registro estrito, mesmo antes de ouvir a pergunta completa. Ele quer deixar muito, muito claro: ele é um democrata. Cem por cento, um verdadeiro democrata. Ele apoiou Barack Obama. Ele oferece suporte e apoio a Clinton. Caso encerrado.

Martin, atualmente em uma turnê mundial que irá chegar ao Wolf Trap na quarta-feira, 24 de agosto e quinta-feira, 25 de agosto (é uma das apenas duas paradas planejadas nos Estados Unidos -  o outro show é em Hollywood, Flórida), ele é um dos artistas mais formidáveis do mundo, aquele que ajudou a tonar populares gravações nos idiomas espanhol e inglês. Apesar de seu maior hit ser "Livin 'La Vida Loca," de 1999 uma canção com um gancho infeccioso e uma entrega sexy, ele teve vários singles notáveis desde —  a partir de seus 11 álbuns solo, incluindo "A Quien Quiera Escuchar", premiado com um Grammy em 2016 como melhor álbum Pop Latino. Ele teve uma carreira de ator modesta, incluindo atuações em "General Hospital" e "Glee" e duas passagens na Broadway, em "Les Miserables" e "Evita". Ele  foi sido um jurando nos "The Voice" da Austrália e do México. E ele também é o autor de um livro infantil - Santiago, O Sonhador - assim como "EU", um livro de memórias que passou várias semanas no topo da lista de Best-sellers do New York Times.

Crianças, sem dúvida, são a causa mais querida do seu coração. Como presidente da Ricky Martin Foundation, ele defende o bem-estar global das crianças. É exatamente o que você esperaria do pai de gêmeos de oito anos de idade. Ricky Martin não é meramente um grande artista - ele é um ser humano verdadeiramente grande. Ao ponto que a sua nação, a sua casa, Porto Rico, declarou que o dia 31 de agosto de 2008, é o Dia Internacional do Ricky Martin. Nada mal para um cara que, em 1984, foi rejeitado em sua primeira audição para a banda porto-riquenha Menudo como sendo demasiado pequeno. Ainda bem que eles tiveram juízo depois da sua terceira audição.

Metro Weekly: Oi, Ricky.
Ricky Martin: Ei, Randy! Como vai, cara? Obrigado pelo seu tempo!

MW: Não, obrigado pelo seu tempo. Esta é uma grande honra.
Martin: Onde você está baseado, onde fica a revista?

MW: Washington, D.C. Somos uma publicação para o público LGBT .
Martin: Oh, cara. Estou feliz que estamos fazendo isso!

MW: Pelo menos eu não vou te perguntar se você é gay.
Martin: [Risos]. Por que não, cara?

MW: Talvez eu devesse.
Martin: [Risos]. "A primeira pergunta: você é gay?"

MW: "primeira pergunta: você pode confirmar os rumores de que você é gay?"
Martin: [Risos].Eu sou tão gay como eles vêm, cara! O que posso dizer?!

MW: Okey, então vamos começar por aí. O que é com o passar por anos de ser questionado pela imprensa e não realmente ser capaz de responder honestamente e abertamente a essa pergunta? Não acho que a maioria de nós nem percebe o tipo de estresse que é isso, o de esconder sua sexualidade publicamente.

Martin:
Você fica cheio de medo, sabe? Por muitos anos, você está obcecado com a aceitação, mas de acordo com suas crenças e sua religião e talvez um pouco de sua cultura também, dizem-lhe que se sentir assim é mau - é algo que eu não desejo a ninguém.

"Eu gostaria de poder sair de novo, cara, porque o sentimento era tão bonito. É tão incrível que é tipo, 'Cara, por que eu não fiz isso antes?' "

Mas eu já disse muitas vezes: quem me dera poder sair novamente, cara, porque a sensação era tão bonita. É tão incrível que é como, "Cara, por que eu não fiz isso antes?" Todos passam por esse processo. É mais fácil para alguns, e é realmente difícil para os outros. Há muitos homens e mulheres por aí que infelizmente morrem sem ser capaz de atravessar a vinda para fora de tod esse processo. Isso é muito triste. Eu me considero alguém de muita sorte. Depois que eu saí, o amor que eu recebi da plateia, dos meios de comunicação, de minha família...

MW: Mas no seu caso e no caso de muitas outras celebridades, constantemente é barrado pela imprensa. Quero dizer, aqui está, um músico, tentando fazer música, quer entreter, e ainda a sua vida pessoal se torna como um ponto focal. Não deve ser fácil de navegar.

Martin
: Foi pior para mim em um sentido porque minha religião - e até mesmo minha cultura - estava me dizendo que era ruim sentir o que estava sentindo. Eu passei por isso. Foi muito - diria doloroso, mas eu sou um sobrevivente no sentido de que estou aqui. Eu estou vivo. Muitas das pessoas no processo, infelizmente, eles procuram uma arma e decide terminar suas vidas. Isso não foi o meu caso. Então, hoje, o que podemos fazer? Ser um exemplo. E que as pessoas saibam que você pode fazer o que quiser na vida. Sua identidade sexual não tem nada a ver com o quão longe você pode ir na vida.

MW: Você saiu em 2010, antes de que tínhamos o casamento gay, antes de todas as batalhas por nossos direitos realmente começaram a virar a maré. Como você se sente quando você olha para como as coisas vieram acontecendo em tão pouco tempo?

Martin
: Ouça. Quando você está andando na rua, ou quando você está fazendo um compra na loja, e você encontra com os seus fãs, ou mesmo através das redes sociais, e você lê ou ouve sobre testemunhos de pessoas, dizendo: "Ricky , obrigado. Obrigado por ter saído do armário (se assumido gay), porque o dia que você saiu, eu percebi que estava tudo bem em ser gay ", especialmente para a comunidade latina aqui nos Estados Unidos. Quando eu vou para países como Argentina, Colômbia, Venezuela, Costa Rica, Nicarágua e me reúno com a comunidade LGBT, e me encontro com as pessoas que estão lutando com sua identidade nesses países, e eles me dizem que, por causa de como eu saí, que se tornou de uma maneira mais fácil para eles, é o que levo comigo. Hoje, tudo que faço é comemorar a minha identidade sexual. Estou orgulhoso de quem eu sou.

MW: Notou uma mudança em sua base de fãs em tudo? Foi perceptível mesmo?
Martin: No dia que eu saí, 1 milhão pessoas começarams a me seguir no Twitter. No mesmo dia.

MW: É uma grande mudança.
Martin:
É uma grande e positiva mudança. Muita gente me disse, "Ricky, você vai perder a sua base de fãs do sexo feminino". Acho que é completamente o oposto. Todos os medos estavam na minha cabeça. Quando eu saí, tudo era melhor.

Não devia importar. Então, novamente, vivemos no show business. É cheio de fantasia, para o público, eles criam uma certa imagem em suas cabeças sobre os artistas que eles seguem. Eu entendi o que as pessoas estavam me dizendo, mas eles estavam todos errados. Eu ainda tenho lotado arenas. Eu ainda estou lotando estádios. E é realmente algo que eu não deveria me preocupar. Ninguém deveria.

MW: Está na indústria da música há mais de 25 anos...
Martin: Eu comecei quando eu tinha 12 anos, e agora tenho 44 anos. Já faz um tempo.

MW: O que tem a música feito para você em sua vida? O que ela lhe trouxe, sendo parte deste processo?

Martin: Para ser capaz de falar sobre a minha cultura através da música, com os ritmos que eu uso, com a instrumentação que eu uso, para ser capaz de criar fusão entre Latino e Anglo e sons africanos, para ir a continentes como a Ásia, e ir para países como o Japão, Coreia, até mesmo a China, e cantar, e ver as pessoas reagitem a esses sons étnicos - e ver as pessoas apreciá-los como se eles cresceram ouvindo esses sons étnicos - é algo que realmente me move, realmente me inspira. Para ver como os limites são quebrados, e como é bonito para unir culturas através da música - é algo que você não pode explicar, realmente. Para ver as pessoas na China, cantando as canções em Inglês e em Espanhol, é incrivelmente especial. Isso é o que me mantém aqui.

Dez anos atrás, eu disse, "Eu acho que eu vou me aposentar. Eu fiz tudo o que eu queria. Estou em uma posição confortável para dizer adeus." Mas não. Porque a reação do público através das redes sociais é, tipo, "Quando vamos te ver no show?" E depois há a minha necessidade de estar no palco e cantar. É o meu playground. É onde eu me torna uma criança novamente.

MW: Então você ainda tem a preocupação com seu desempenho no palco do que há 25 anos atrás?

Martin: Todos os dias é completamente diferente, mas sim, no final do show, quando você vê pessoas de diferentes origens culturais e diferentes gerações, e quero dizer com indo para lá me ver, Randy, as pessoas realmente estão se permitindo sentir-se livre por uma hora e quarenta e cinco minutos de show. Foi quando eu disse: "Ok, nós estamos fazendo a coisa certa, e devemos continuar fazendo isso." É sobre isso que é o meu show - é de uma hora e quarenta e cinco minutos onde eu desafio o público a esquecer todos os seus problemas, e pela primeira vez, não se sentem julgados, e não julgam quem está de pé ao seu lado, que está dançando sem ritmo, mas ainda está dançando. Isso é o que me move e que me inspira a continuar fazendo isso.

MW: Eu sei que você é uma pessoa muito espiritual. E nós vivemos em um tempo muito difícil agora. Muito de sua música é simplesmente exuberante. Em certo sentido, você está prestando um serviço espiritual para as pessoas.
Martin: Eu aprecio isso e muito obrigado por dizer isso. Sim. Através das redes sociais, ou mais uma vez, andando pela rua, você encontra uma garota que diz, "Eu fui ao seu show há dois meses. Muito obrigado." Então, ela vai te dizendo como sua vida era antes do show, e como ela se sentiu mal consigo mesma, ela sentiu que ela estava cheia de inseguranças, e de repente, depois do show, foi como um ponto de viragem para ela. Isso acontece-me muitas vezes, Randy. É muito especial, então é uma grande responsabilidade, mas é algo que levo com - como pode dizer isso em inglês? - Eu levo com orgulho. É por isso que continuo a fazer isto. Aparentemente minha música, meu desempenho, meu entretenimento cura as pessoas de maneiras diferentes.Não quero parecer arrogante ou estranho sobre isso, mas é algo que recebo todos os dias, e isso me faz feliz.

MW: Em junho, tivemos a tragédia horrível na boate Pulse em Orlando. Assim, muitas das vítimas eram porto-riquenhos, bem como gays. Como você se sentiu quando você ouviu falar sobre isso? Particularmente já que é tão intimamente ligado a sua nacionalidade.

Martin: Eu estava gastando o meu verão no sul da França, e depois isso aconteceu. Fiquei arrasado por razões óbvias. Mas também tenho amigos que tinham amigos naquele clube naquela noite. A fim de me livrar da minha raiva, e da minha frustração, eu escrevi um artigo. Eu era capaz de falar com as famílias das vítimas, porque aparentemente eles quiseram me ouvir, mas eu também precisava ouvi-los, a fim de me curar, se você sabe o que eu quero dizer. É "Como posso me livrar dessa raiva? Como posso me livrar desta frustração? Como posso me livrar dessa incerteza? "
Bem, a minha abordagem de cura estava sendo estar tão perto das vítimas que pude, e sim, eu falei com alguns deles. É horrível. O que posso dizer, Randy? Isso é algo que precisa parar. É por isso que cada vez que eu posto uma foto minha com a minha família no Instagram, ou nas mídias sociais, primeiro, eu quero compartilhar porque eu tenho orgulho da minha família, mas eu também quero compartilhar porque eu sei que essa imagem vai chegar a milhões de homens e mulheres que estão lutando com sua identidade, que por causa de ataques como este, eles sentem medo de aceitar a si mesmos, e eu acho que parte da minha missão na vida é deixar o mundo saber que não há nada de errado com amar e ser amado.

"Meu ativismo na política é baseada na 'Vamos sair [e votar]." Especialmente para a comunidade latina. Precisamos nos mostrar. Precisamos de voto. Precisamos ter certeza de que o muro não será construído. "

MW: Houve um ponto em que você cantou para George W. Bush. Mas você...

Martin: Espere, espere, espere, espere, espere. Quando ouço isso eu fico nervoso e eu começo a suar imediatamente. Eu era um artista jovem, seduzido pela fama e glória. Vou dizer-lhe a orientação que o meu empresário me disse no momento. Ele me disse: "Você foi convidado para cantar na cerimônia na Casa Branca, e você tem a oportunidade de representar a comunidade latina. Você fará isso?" Eu disse:" Sim. "Eu sou um democrata. Apoiei Barack Obama. Eu fiz campanha para Barack Obama - e isso foi antes de eu assumir que eu era gay. Agora, eu estou apoiando - e estou fazendo campanha para  Hillary Clinton. Eu sou um democrata.

MW: Eu não acho que você não é. Meu ponto ia ser que Bush parece manso em comparação ao que nós temos agora, com Trump. Como você se sente sobre o fato de que ele está fomentando o racismo neste país?

Martin: Bem, eu acho que isso é crítico. Precisamos aparecer, e nós precisamos de voto, e precisamos votar em um país livre do ódio. Temos tido tantas etapas surpreendentes para um futuro livre de preconceitos. Quando você vê este homem falar, é assustador. Não só para mim, mas para todos os meus amigos de diferentes partes do mundo. Eles estão alarmados do que este mundo poderia tornar-se se alguém como Trump chegue à Casa Branca. Meu ativismo na política é baseado em "Vamos sair [e votar]." Especialmente para a comunidade latina. Precisamos mostrar-nos. Precisamos de voto. Precisamos ter certeza de que o muro não será construído - que não faz sentido, porque apenas a idéia de um muro que nos separa é ridículo. Eu não vou parar até o dia da eleição.

MW: Eu fiquei surpreso quando ele disse que os mexicanos eram estupradores e assassinos. Quando ele anunciou a sua campanha com isso, eu pensei: "Bem, ele nunca vai passar o portão de partida."

Martin: Mas ele passou.

MW: Mas ele passou.
Martin: Nós temos que sair e votar.

MW: Hillary tem seus próprios problemas, embora. Há um grande número de pessoas à procura de alternativas. O que você diria para aqueles que votariam em alguém que não seja Hillary neste momento, como um voto para um candidato independente pode conseguir ajudar a colocar Trump na Casa Branca?

Martin: Bem, você sabe o quê? Isso é quando alguém como Bernie Sanders entra. Ele precisa de fazer campanha para Hillary. Ele precisa de trazer a sua multidão, e votar por uma mulher que é tão preparada para estar na Casa Branca.

"Meus filhos estão com oito anos de idade. Eu não sei como eu fui da compra de fraldas para a compra de uniformes escolares. Cada decisão que eu faço é baseado em seu bem-estar ".

MW: Deixe-me perguntar-lhe sobre a paternidade muito rapidamente. O que a paternidade trouxe para você? O que gosta em ser um pai?

Martin: É a coisa mais linda que já aconteceu para mim. Cada dia é algo novo. Cada dia é cheio de surpresas. Os meus filhos estão oito anos de idade, e o tempo só voa. Eu não sei como eu fui de comprar fraldas para a compra de uniformes escolares. Um monte de pessoas me dizem: "Sim, é uma grande responsabilidade." Sim, é uma grande responsabilidade. Não é mais sobre você. É sobre eles. Cada decisão que eu faço é baseado em seu bem-estar. Eu só estou começando. Eu quero uma família maior, para ser honesto.

MW: Que valores você ensina aos seus filhos?
Martin: Para eles, para não julgar. Para eles verem as semelhanças em vez das diferenças entre as pessoas. Eu acho que eu estou fazendo um trabalho muito bom quanto a isso.

MW: Você está vindo ao Wolf Trap para fazer dois shows. Como você quer que as pessoas venham para o seu show?

Martin: Eu preciso primeiramente que eles saibam que o seu traje tem que ser o mais confortável possível, porque eles vão dançar como loucos. E eles vão suar. Eu quero que eles se permitam ser livres por uma hora e quarenta e cinco minutos e, literalmente, esquecer-se sobre todas as questões da vida. Basta ser livre. Apenas seja feliz. Eu prometo que eles vão se lembrar do show com alegria. Vai ser divertido - muita diversão. É um grande carnaval. Prepare-se!

Ricky Martin se apresenta na quarta-feira, 24 de agosto e quinta-feira, 25 de agosto, às 20:00 The Filene Center at Wolf Trap, 1551 Trap Road, Vienna. Tickets are $45 to $125. Call 877-WOLFTRAP or visit wolftrap.org.

Texto: Randy Shulman 
Fonte: Metro Weekly.
Tradução: Claudia Salgado